Sunday, December 17, 2006

Ford e a Anorexia

"Você pode comprar seu carro da cor que quiser, desde que seja preto".
Essa frase (ou algo próximo dela, só que em inglês) é de Ford. Significava, por um lado, que a possibilidade da produção em série tinha seus limites. Por outro lado, ela apontava o desejo de subjugar o gosto do comprador às possibilidades da produção em série, o que garantiria o máximo de vendas.
A psicanalista Anna Veronica Mautner, colunista da Folha (em coluna publicada no dia 19 de novembro e trazida a mim pela minha sempre atenta esposa, Ana), levantou uma hipótese interessante, ao comentar o boom de anorexia dos últimos tempos:
"Quem manda é quem inventa a moda. Ora, é muito mais fácil vestir uma tábua do que uma gorda. Na magra, as diferenças genéticas são menores porque, nas normalmente avantajadas, as medidas [...] são extremamente variadas [...]. O estilista, pois, cria para as magras e as mulheres querem poder vestir com facilidade as roupas que são criadas".
Afirmaria Gautier, num arroubo fordista:
"Qualquer um pode usar as roupas que faço, desde que seja manequim 34!"

Tuesday, December 12, 2006

Auctoritas

Auctoritas, do latim, é a idéia de autoria legítima que alguém se arroga sobre uma produção. Desse vocábulo também vem a palavra "autor". Obvio: se copiamos um texto de alguém sem lhe dar mérito, isso se torna plágio. Mas não é sobre esse tema chato que quero falar. Quero explorar o outro lado da questão, que é o esforço de todos nós em encontrar uma voz própria naquilo que escreve. Como professor, leio toneladas e toneladas de textos. São provas, trabalhos em grupo, TCC, iniciação científica, trabalhos de congressos, artigos, teses, dissertações, e aí vai... Fica sempre a pergunta, "mas qual é a opinião do autor, o que existe dele nisso tudo?". E muitas vezes dizemos: nada. Insegurança? Se tudo de inteligente já foi dito por algum grego enrolado num lençol, então por que tanta verborragia? Não há justificativa. E isso muitos filósofos sabiam muito bem. Wittgentein ficou vários anos em silêncio porque não tinha nada de original para falar. Recluso do mundo, como um eremita da gramática, esperou muito até que pudesse novamente escrever. Bem, esse rigor não exijo de ninguém, muito menos de mim mesmo! Menos! Mas de vez em quando acho saudável me perguntar quando escrevo: onde está o Autor nisso, onde estou eu?

Meu best-seller organizacional

No último domingo, uma amiga tentava me convencer a escrever um livro sobre aspectos psicológicos da organização. Ela garantia que seria um best-seller, porque eu sabia escrever, tinha mestrado na GV e já havia dado aulas em faculdades bacanas.
Outro amigo, na mesa, tentava me convencer a ler um desses guias de auto-ajuda organizacionais, em que se compara ensinamentos budistas aos hábitos de pessoas eficazes para garantir seu sucesso nas organizações. Para ajudar a me convencer, ele me contou parte dos conselhos que o livro dava.

A situação me lembrou, imediatamente, de uma tirinha do Calvin e Haroldo. Calvin decide ficar rico escrevendo um livro de auto-ajuda. Ele explica como escrever o livro:
"Primeiro, você convence as pessoas de que há algo errado com elas. Isso é fácil, porque a publicidade ja condicionou as pessoas a se sentirem inseguras quanto ao seu peso, aparência, status, atração sexual e assim por diante.
"Depois, você convence as pessoas que o problema não é culpa delas e que são vítimas de forças maiores. Isso é fácil, porque é o que as pessoas acreditam de qualquer forma. Ninguém quer ser responsável pela sua própria situação.
"Finalmente, você as convence de que, com os seus sábios conselhos e encorajamento, elas podem resolver seu problema e serem felizes."

Bom, já li alguns livros de auto-ajuda empresarial na vida. O suficiente para saber que o caso se aplica. Eu acrescentaria às regras do Calvin apenas mais uma: "Escreva o óbvio, mas compare com alguma coisa que esteja bem na moda, como o budismo, a teoria do Caos ou a responsabilidade social". E está pronto seu best-seller.

É claro, é preciso também que seu nome tenha peso. Nessa hora, me lembro do "Pequena Miss Sunshine" (spoiler: vou estragar parte do filme pra quem não viu; se você não viu ainda, vá ver, e depois volte pra ler o resto do post). De qualquer forma, deixo aqui apenas a idéia do filme: "Seu método é ótimo. O problema é que ninguém vai comprar um livro de um Zé Ninguém como você".

Dito tudo isso, começo a escrever meu best-seller. Seu principal ensinamento será que, para qualquer situação de vida em que você se encontra, existe uma tirinha do Calvin que poderá te ajudar a compreendê-la melhor!

Que tal?