Friday, November 03, 2006

Qual burocracia?

Escolas têm elementos burocráticos, por exigências legais. Devem emitir certificados que sejam críveis, e para isso uma série de procedimentos devem ser seguidos, desde o controle de presença dos alunos, até a adequada aplicação de avaliações. A necessidade de padronização e controle também tem outras origens: a necessidade dos acionistas de controle ou a dos clientes (alunos) em manter a qualidade de ensino. Em contrapartida, a chamada "liberdade de cátedra" permite uma grande autonomia para o professor em sala de aula. A questão é saber se essa liberdade é oriunda de um valor que se sustenta por si só, ou se ela tem na realidade um fundamento econômico. Enquanto econômico, ela existe porque o custo de padronização e controle das aulas é muito alto. Se isso for verdade, o papel do administrador da escola é montar o design do currículo que permita uma flexibilidade de implementação: os conteúdos entre as disciplinas devem ser complementares (e não sobrepostos) e devem ser sequenciados. Mantidos esses dois imperativos (que nem sempre são implementados), é possível a variação individual. A contrapartida é que as escolas devem também focar-se na seleção de pessoal muito qualificado, justamente porque a variação individual é parte da experiência de aprendizado. Partindo desse ponto, devemos nos perguntar se a redução dos custos de controle e padronização não levaria necessariamente à eliminação da liberdade de cátedra. Slides preparados em Power Point, padronização de avaliações, etc, são exemplos de oportunidades de redução desses custos. Os adeptos da teoria crítica nos diriam: é o controle pelo controle. Mas não é necessário ir tão longe... Podemos ainda manter o argumento utilitário: a maior padronização permitiria uma expansão de cursos através de franquias, pois exigiria uma menor necessidade de pessoal qualificado. Com a menor autonomia dos professores, seria maior a possibilidade de direcionamento estratégico por parte dos dirigentes das escolas. Mintzberg argumenta que essa padronização completa enfrenta não só obstáculos econômicos, mas também os valores dos professores. Frente à uma burocracia mecanizada (alta padronização das atividades dos professores), os professores buscariam mudar para burocracias profissionalizadas, onde a sua autonomia estaria resguardada. Mas essa inferência baseia-se em dois pressupostos exógenos ao modelo de Mintzberg: pressupõe que os professores foram sociabilizados em seus cursos de pós-graduação strictu sensu a valorizar a pesquisa original, a autonomia de pesquisa e ensino e a experiência de aprendizado como algo único, que foge do modelo "super mercado" de ensino. Por outro lado, assume que existe um mercado acadêmico com suficiente liquidez que permita essas mudanças. Esses dois pressupostos, no entanto, devem também ser submetidos à análise empírica.

2 Comments:

Blogger Augusto Galery said...

Como adepto da teoria crítica, acho que é o controle pelo controle! :-) Mas é sério, acho que: 1) esse tipo de padronização massifica o ensino, o que, de certa forma, significa padronizar o modo de pensar, o que, por sua vez, é um "desserviço". Por outro lado, 2) é impossível, pois, usando a metáfora freudiana/enriqueziana, seria a tentativa de reduzir o ato de ensinar a pura pulsão de morte. Acho que não é uma simples questão de valores, como coloca Mintzberg, é uma questão de "humanidade", no sentido daquilo que nos caracteriza como pessoas...

4:36 PM  
Blogger Charles Kirschbaum said...

O que é interessante é que mesmo que um outro não padronize, existe uma auto-padronização, na medida em que as aulas começam a ser rotinizadas. Isso acontece principalmente com professores que dão a mesma disciplina muito tempo. Aí o desafio é sair daquela coisa bem, bem rotineira. Mas isso todo mundo sabe! É que a coisa fica mais na cara quando é outra pessoa que nos força a ensinar algo que não é nosso.

12:34 PM  

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